segunda-feira, 13 de abril de 2009

Literatura: O Livro Horripilante de Zé do Caixão

O ato e cineasta José Mojica Marins - responsável por filmes como À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1962) e Encarnação do Demônio (2008) e apresentador do programa O Estranho Mundo do Zé do Caixão – recentemente decidiu investir, acredite, na literatura na infantil. O Livro Horripilante de Zé do Caixão (R$ 27,90, Panda Books) traz uma reunião de contos de terror feito especialmente para a molecada. Com ilustrações do francês Laurent Cardon o livro apresenta crianças reais, que não são nem heróis nem vilões. Apenas crianças, que brigam com os amigos, têm preconceitos e até planejam vinganças.

Jotinha, por exemplo, se esconde em um ferro-velho mal-assombrado e apronta todas, enquanto Rafaela transforma o aniversário de Laura em uma festa de horror. Já Aninha é perseguida pelo fantasma do preconceito em uma rua deserta. Mas nem só de terror se faz um conto, como diz o próprio autor das histórias. Atrás de cada susto, vem sempre uma boa lição a ser aprendida sobre amizade, preconceito, solidariedade e até sobre a origem do próprio medo. Nesta entrevista com Mojica, conheça um pouco sobre sua obra infantil e outras coisinhas a mais...

Como o senhor foi parar na literatura infantil?
Eu recebi uma homenagem na qual fui convidado para declamar contos de terror, mas infantis. Eu me preparei com umas duas histórias e comecei a contá-las. Mas, quando comecei, a criançada adorou e pedia mais. E passei a improvisar, pegando minhas histórias de adultos e transformando-as, na hora, em contos para a garotada. Uma pessoa da editora ouviu e me procurou com a ideia de lançarmos um livro de contos de terror para as crianças. E assim fiz.

Que mensagens positivas um livro de terror infantil pode trazer para as crianças?
Muita coisa. Nas historinhas, o Bem sempre vence o Mal. Além disso, mostro que a criança tem de respeitar os professores, os pais, os mais velhos e os amigos. Não partir para a briga nunca e estudar, que isso faz bem para o futuro, para que ela possa crescer. Isso tudo é apresentado de maneira bem fácil para a criança entender e aprender e tem dado muito efeito.

O livro é recheado de histórias de assombrações. O senhor acredita em fantasmas?
Não. Eu acredito em fenômenos que fazem parte da nossa vida, mas em espíritos que ficam atormentando as pessoas não acredito. Isso tudo é o imaginário, são lendas, que se coloca na cabeça. O que existe de verdade é a nossa essência, a nossa energia. Da forma que a nossa voz fica presa no planeta, a nossa imagem também fica para sempre.

Além de escrever e fazer filmes, o senhor também apresenta o programa O Estranho Mundo do Zé do Caixão. Como está sendo essa experiência?
Fantástica e tem muito retorno. A audiência aumenta a cada semana e eu renovei o contrato para um terceiro ano. Eu acho que está dando muito certo e estou feliz com os resultados. No programa, a gente mexe com um dos maiores sentimentos do ser humano, o medo. Então, a idéia do programa é tornar fazer algo diferente de tudo o que já se viu na TV, que é mexer com o lado obscuro dos entrevistados, com o medo deles, o sobrenatural.

Como é fazer filme de terror no Brasil?
Eu sou o único no gênero no Brasil. Tem gente fazendo curtas de terror, mas longa-metragens, não. É bem complicado. Parece que a fita é barata, mas sai bem caro conseguir os efeitos que se deseja. Porém, é um gênero que eu adoro desde criança.

Como foi seu primeiro contato com o cinema?
Meu pai era operador e gerente de um cinema e nós morarmos no fundo do cinema em uma época em que não havia internet, televisão. Era só o cinemão. Eu tinha do meu lado aquele sonho que é o cinema.

Quais foram as dificuldades que enfrentou no início de carreira?
Recebi muitas críticas negativas, além disso na época estava nascendo a ditadura. E eu fui um dos perseguidos, passei maus bocados, ser preso. Eles diziam que o meu terror era político, que havia uma mensagem política por trás de meus filmes que até não descobrimos qual era. E essa pressão me fez sofrer demais, me atrapalhou muito a vida. Quando prenderam O Despertar da Besta por 20 anos, uma fita que eu procurei realmente demonstrar a falsidade do ser humano, eu acho que os sensores ficaram perturbado com isso e acharam que eu estava mexendo com eles. Mas o que estava fazendo era um filme de protesto ao ser humano e não político. Com isso, os produtores ficaram assustados e não queriam mais investir nos meus filmes.

Hoje seus filmes são cultuados no mundo todo e antes, no começo, eram considerados trash, sem pé nem cabeça, de baixo nível. Como vê esse reconhecimento tardio?
Encarnação do Demônio está ganhando diversos prêmios agora, um deles o de melhor filme de terror do mundo e agora estou concorrendo na Argentina. Eu estou mostrando o que sempre quis: a hipocresia humana. As mesmas pessoas que falavam mal dos meus filmes antes, dizendo que não prestavam e que eu devia ser preso por fazer isso, hoje falam que eu sou um gênio. Como sei disso? Eu guardo todos os jornais, desde os anos 40, que traziam matérias sobre os meus filmes. Acho que o Brasil não estava preparado para receber o gênero de terror, isso assustava, era novidade. O que não entendo, já que estamos no país mais mítico do mundo, cheio de superstições, lendas.

Já tem novos projetos à vista?
Eu estou preparando um piloto e todo um esquema para eu voltar à TV aberta. Minha idéia é fazer um show de horror, com candidatos, provas assustadoras... Aqueles que não passam na prova vão direto para o caixão!

Como nasceu o personagem Zé do Caixão?
Ele nasceu de um pesadelo, em uma época conturbada demais. Era início da ditadura, os cinemas estavam sendo fechados, os filmes estavam sendo censurados. O meu desespero fez com que me voltasse para algo diferente. Ninguém acreditava em terror na época e comecei a lançar meus filmes por meio de intermédio de cotas, para o açougueiro, o padeiro, bazares... E realizei os filmes, mostrando que era possível o cinema não morrer, fazendo nascer o cinema independente e junto com ele o Zé do Caixão. Criei para os filmes um personagem inédito, bem brasileiro, sem precisar imitar os personagens estrangeiros, como vampiros e múmias, Frankenstein, nem nada. Ele é nosso, é tupiniquim.

Qual é o seu grande sonho?
Bem, na área de comunicação eu já fiz nde tudo, até cantar, escrever música, lançar discos... Agora eu tenho um filme chamado Adolescência em Conflito, que eu gostaria muito de realizar um dia. Não é de terror sobrenatural, mas de terror da vida real, as drogas, o desrespeito. Sei que todo mundo já fez algo sobre isso, mas eu queria fazer diferente de tudo, mostrar o outro lado da violência. Mostrar para o assassino o sofrimento da sua mãe, de sua família, quem sabe a gente mudaria um pouco mais o mundo. Eu estou lutando para realizar isso. É o meu sonho conseguir verba para realizar esse sonho. Esse seria minha realização final. Mas pode ser que, antes disso, eu venha a fazer duas ou três fitas de terror.

(shirley paradizo)

Um comentário:

Conceição Duarte disse...

Isto pode ser muito feio de minha parte, mas detesto esse cara e seu trabalho!
Um beijo, CON